Um furto permitido
(Crônica premiada em 1º Lugar no Concurso Literário Monlevade 36 anos)
De vez em quando a Clarice me aparece, como que se ressuscitasse de um de seus livros. E ali, fica assentada bem a minha frente, olhando pra mim com um olhar altivo, quase agressivo.
Percebo que ela conversa comigo através dos olhos e, por ser tão íntima, talvez mística, sabe muito o que se passa dentro de mim. Mas, em outras horas confunde-me, não estou bem certa das coisas que ela tenta dizer apenas com o olhar e, então, ela me surpreende com as palavras. Ela vive de esculpir palavras, assim como eu.
Porém, suas esculturas são perfeitas; as minhas são projetos, tentativas, possíveis acertos a longo prazo.
Essa madrugada, ela conseguiu intrigar-me. Eu a olhava como um espelho, acrescentando os meus pensamentos enquanto a ouvia e imaginava; eu e ela éramos a mesma pessoa. Contava-me histórias que eu acreditava Ter vivenciado. Não era ela. Era eu.
Creio que muitas vezes a confundo com um anjo, nunca sei de verdade de quem é a imagem que toda noite surge no mesmo instante em que abro um livro. É um momento de magia, de intimidade, cumplicidade e angústia. A cada dia encontro restos de alegria, lembranças do que ela não foi, em cada um de seus contos, ou meus? Tem dias que a encontro mais leve, em outros imparcial, reta, exata.
Nesses nossos encontros contínuos e inadiáveis, nem tudo são flores,... Quase sempre acontecem guerras, e eu as chamo de guerras de silêncios, afinal, essa guerra é entre mim e “Eu”, o “Ela”,já que somos uma mesma pessoa. E como são penosas, como doem!
Ontem, fui tomada pelo impulso de abrir um livro, mas fechei-o no mesmo instante. Foi nesse pequeno intervalo que ela começou a gritar:
_ “Cada dia é um dia roubado da morte.”
Coisa estranha... fiquei o resto do dia me perguntando, porque ela gritava tanto sem que eu tenha dito uma só palavra...
Sua voz começou a me perturbar, a incomodar-me e resolvi, então, precipitar o nosso encontro de todos os dias. Abri o livro, e ela fluiu. Eu a indaguei:
_ Porque você gritou daquele jeito? Por que, Clarice?
Ela com sua linguagem Lispectoriana e a voz imperturbada respondeu:
_ Não fui eu quem gritou! Você é quem me ouviu gritar.
Lembrei-me do Fernando Pessoa; ele adora frases desse tipo. Cada coisa é uma coisa.
Eu estava ansiosa para escutar o que ela iria me falar, e com o mesmo impulso de antes, comecei a folhear o livro, com a pressa dos inconsequentes.
Acabei por não escutar nada do que ela disse. Fechei o livro e, de repente, me vi com o telefone à mão conversando com minha tia. Eu falava compulsivamente... foi quando minha tia gritou:
_ Mas, ...seu avô tem 300 anos!
Calei-me imediatamente.
Mas que delírio é esse? Que conversa é essa? Porque ela está dizendo isso?! Meu avô completará 95 anos em maio, ...entendi o que ela gritara como um comentário irônico que se traduzia em: “Ele vai acabar ficando pra semente”, “ele tá durando muito” , “ele não morre!”, algo nesse sentido.
Foi quando ela interrompeu os meus pensamentos e continuou:
_ A mãe dele é do século XIX, ele praticamente atravessou o século XX, e os netos e bisnetos estão ingressando o XXI. Portanto, são três séculos absorvidos, seu avô completará 300 anos!
Sorri, um pouco aliviada com o que ouvira. Mas, não tinha a menor idéia do que levou-nos a esse assunto.
Encontrei-me novamente com o livro à mão. Não abri, tive receio, um pouco de medo. Respirei fundo e dei asas aos meus pensamentos, deixei-os ir. Mas, eles estavam acorrentados, não fluíam, apenas repetiam como maritacas: “cada dia é um dia roubado da morte”, “seu avô, tem 300 anos!” Essas frases se confundiam, tiraram-me o sossego.
Fui à cozinha, bebi um gole d’água e resolvi encarar os meus tormentos. Abri o livro novamente e lá estava ela. Fiquei alguns segundos com os olhos perdidos, observando as letras se embaraçarem , brincarem a minha frente, até que por fim, Clarice começou a falar.
Era preciso que eu soubesse ouvir, deixar que ela entrasse dentro de mim, parar de ter boca, segurar os pensamentos, produzir silêncio para que assim, eu pudesse entender o que ela queria tanto me dizer. E como valeu a pena!
O medo que eu tinha da morte, não me deixava compreender que para saber viver eu precisava saber morrer. É preciso ir-se morrendo aos poucos, para poder renascer todos os dias. Para muitas pessoas a proximidade da morte desperta a vontade de viver plenamente o que elas acreditam ser, seu último dia; e aí está a sabedoria; gozar a vida como uma criança...
Quando a Clarice gritou, “cada dia é um dia...”, ela tentava me dizer: Seja feliz, Viva! Mas, o meu medo era tamanho, e eu só pensava na proximidade da morte como algo amedrontador, um castigo. E deixava para ser feliz no futuro.
Enquanto minha tia tentava dizer sobre a experiência adquirida por meu avô nesses últimos anos, eu só conseguia enxergar, o pouco tempo de vida que lhe restara.
Ridícula em meu egoísmo, não conseguia enxergar o essencial; todo dia morremos um pouco e como é bom sermos amigos da morte; viver cada dia como se fosse o último, isso sim é ser feliz!
Fechei o livro. Segurei-o como se fosse o meu último dia. Fechei os olhos, escapou-me uma lágrima...
Fui abrindo os olhos sem pressa... começava a gostar desse novo jeito de sentir a vida, de observar as coisas, de viver a morte.
Foi quando percebi que ela ainda estava aqui, embora o livro estivesse fechado.