domingo, 4 de novembro de 2007

Presença de Hera

Presença de Hera


Não há ninguém. Enquanto olhava o espelho vazio desejava nadar em vidas mais largas. Enquanto vinha o sonho, escutava o eco daquelas palavras. Escuta? Não há ninguém.
Era o que não podia renascer. Um pedaço da pequena morte. A solidão mais espessa. A inexistência de palavras em minha boca...
Palavras não nascidas.
A busca no quarto escuro por qualquer imagem. Alguém espia-me com olhos que ninguém pode fechar. Olhos de quem deseja, mas deseja com medo.
Como se segurasse um punhal, morria com minha própria morte. Flutuando pelos vales da loucura, ainda em vida.
Uma vida, outra vida, quantas delas irei esperar para saciar a forme?
Fome que não se come com a boca, mas com os olhos.
Quanto do que vem, do perdido, do errante ainda quer me encontrar.
Minha coroa de hera é físico. Não cabe alma, coração.
Toco a vida com anel vazio, pesado, sem brilho. Suor...
Ao tentar engolir tantos restos, tenho preguiça de olhar para trás, não existe reação diante do nada.
Sem nome ainda tudo que era vôo, encontra lugar.
Quis parar, procurar a eternidade secreta daquela hora sem hora.
Deparo-me com o inconcluso próximo a um abismo.
Este era o lugar. Inconcluso.
Deixa-me chorar, horas, dias, anos, pois já não existe o choro. O dia é igual a noite, não há o que perdoar, tudo parece inutilmente irremediável.
Colecionando, guardando dias que não existiram. Procurando e vagando em qualquer miragem, como se recolhesse ossos de mim mesma. Grito para eu mesma escutar.
Na procura da cura para loucura, nada ficou intacto. Aqui ou noutro lugar a alma há de encontrar abrigo, ainda que distante.
O corpo acorrentado, acomoda-se, não ousa nunca.
Escureceu...Heras não alimentam minha alma.

Renata Domenicci

Um furto permitido

Um furto permitido
(Crônica premiada em 1º Lugar no Concurso Literário Monlevade 36 anos)

De vez em quando a Clarice me aparece, como que se ressuscitasse de um de seus livros. E ali, fica assentada bem a minha frente, olhando pra mim com um olhar altivo, quase agressivo.
Percebo que ela conversa comigo através dos olhos e, por ser tão íntima, talvez mística, sabe muito o que se passa dentro de mim. Mas, em outras horas confunde-me, não estou bem certa das coisas que ela tenta dizer apenas com o olhar e, então, ela me surpreende com as palavras. Ela vive de esculpir palavras, assim como eu.
Porém, suas esculturas são perfeitas; as minhas são projetos, tentativas, possíveis acertos a longo prazo.
Essa madrugada, ela conseguiu intrigar-me. Eu a olhava como um espelho, acrescentando os meus pensamentos enquanto a ouvia e imaginava; eu e ela éramos a mesma pessoa. Contava-me histórias que eu acreditava Ter vivenciado. Não era ela. Era eu.
Creio que muitas vezes a confundo com um anjo, nunca sei de verdade de quem é a imagem que toda noite surge no mesmo instante em que abro um livro. É um momento de magia, de intimidade, cumplicidade e angústia. A cada dia encontro restos de alegria, lembranças do que ela não foi, em cada um de seus contos, ou meus? Tem dias que a encontro mais leve, em outros imparcial, reta, exata.
Nesses nossos encontros contínuos e inadiáveis, nem tudo são flores,... Quase sempre acontecem guerras, e eu as chamo de guerras de silêncios, afinal, essa guerra é entre mim e “Eu”, o “Ela”,já que somos uma mesma pessoa. E como são penosas, como doem!
Ontem, fui tomada pelo impulso de abrir um livro, mas fechei-o no mesmo instante. Foi nesse pequeno intervalo que ela começou a gritar:
_ “Cada dia é um dia roubado da morte.”
Coisa estranha... fiquei o resto do dia me perguntando, porque ela gritava tanto sem que eu tenha dito uma só palavra...
Sua voz começou a me perturbar, a incomodar-me e resolvi, então, precipitar o nosso encontro de todos os dias. Abri o livro, e ela fluiu. Eu a indaguei:
_ Porque você gritou daquele jeito? Por que, Clarice?
Ela com sua linguagem Lispectoriana e a voz imperturbada respondeu:
_ Não fui eu quem gritou! Você é quem me ouviu gritar.
Lembrei-me do Fernando Pessoa; ele adora frases desse tipo. Cada coisa é uma coisa.
Eu estava ansiosa para escutar o que ela iria me falar, e com o mesmo impulso de antes, comecei a folhear o livro, com a pressa dos inconsequentes.
Acabei por não escutar nada do que ela disse. Fechei o livro e, de repente, me vi com o telefone à mão conversando com minha tia. Eu falava compulsivamente... foi quando minha tia gritou:
_ Mas, ...seu avô tem 300 anos!
Calei-me imediatamente.
Mas que delírio é esse? Que conversa é essa? Porque ela está dizendo isso?! Meu avô completará 95 anos em maio, ...entendi o que ela gritara como um comentário irônico que se traduzia em: “Ele vai acabar ficando pra semente”, “ele tá durando muito” , “ele não morre!”, algo nesse sentido.
Foi quando ela interrompeu os meus pensamentos e continuou:
_ A mãe dele é do século XIX, ele praticamente atravessou o século XX, e os netos e bisnetos estão ingressando o XXI. Portanto, são três séculos absorvidos, seu avô completará 300 anos!
Sorri, um pouco aliviada com o que ouvira. Mas, não tinha a menor idéia do que levou-nos a esse assunto.
Encontrei-me novamente com o livro à mão. Não abri, tive receio, um pouco de medo. Respirei fundo e dei asas aos meus pensamentos, deixei-os ir. Mas, eles estavam acorrentados, não fluíam, apenas repetiam como maritacas: “cada dia é um dia roubado da morte”, “seu avô, tem 300 anos!” Essas frases se confundiam, tiraram-me o sossego.
Fui à cozinha, bebi um gole d’água e resolvi encarar os meus tormentos. Abri o livro novamente e lá estava ela. Fiquei alguns segundos com os olhos perdidos, observando as letras se embaraçarem , brincarem a minha frente, até que por fim, Clarice começou a falar.
Era preciso que eu soubesse ouvir, deixar que ela entrasse dentro de mim, parar de ter boca, segurar os pensamentos, produzir silêncio para que assim, eu pudesse entender o que ela queria tanto me dizer. E como valeu a pena!
O medo que eu tinha da morte, não me deixava compreender que para saber viver eu precisava saber morrer. É preciso ir-se morrendo aos poucos, para poder renascer todos os dias. Para muitas pessoas a proximidade da morte desperta a vontade de viver plenamente o que elas acreditam ser, seu último dia; e aí está a sabedoria; gozar a vida como uma criança...
Quando a Clarice gritou, “cada dia é um dia...”, ela tentava me dizer: Seja feliz, Viva! Mas, o meu medo era tamanho, e eu só pensava na proximidade da morte como algo amedrontador, um castigo. E deixava para ser feliz no futuro.
Enquanto minha tia tentava dizer sobre a experiência adquirida por meu avô nesses últimos anos, eu só conseguia enxergar, o pouco tempo de vida que lhe restara.
Ridícula em meu egoísmo, não conseguia enxergar o essencial; todo dia morremos um pouco e como é bom sermos amigos da morte; viver cada dia como se fosse o último, isso sim é ser feliz!
Fechei o livro. Segurei-o como se fosse o meu último dia. Fechei os olhos, escapou-me uma lágrima...
Fui abrindo os olhos sem pressa... começava a gostar desse novo jeito de sentir a vida, de observar as coisas, de viver a morte.
Foi quando percebi que ela ainda estava aqui, embora o livro estivesse fechado.